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anotações de leitura

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  • A voz da floresta

    É por isso que devemos nos recusar a entregar nossa floresta. Não queremos que se torne uma terra nua e árida cortada por córregos lamacentos. Seu valor é alto demais para ser comprada por quem quer que seja. Omama disse a nossos ancestrais para viverem nela, comendo seus frutos e seus animais, bebendo a água de seus rios. Nunca disse a eles para trocarem a floresta e os rios por mercadoria ou dinheiro! Nunca os ensinou a mendigar arroz, peixe em lata de ferro ou cartuchos! O sopro de nossa vida vale muito mais! Para saber disso, não preciso ficar com os olhos cravados em peles de imagens, como fazem os brancos. Basta-me beber yãkoana e sonhar escutando a voz da floresta e os cantos dos xapiri.

    Davi Kopenawa (redigido por Bruce Albert) em A queda do céu

    (Anotado em 2023-01-06)

  • Circuito impresso

    San Narciso fica mais ao sul, perto de Los Angeles. Tal como muitos lugares na Califórnia que recebem um nome, era menos uma cidade identificável do que um somatório de conceitos — zonas de recenseamento, distritos para o lançamento de bônus públicos, núcleos de lojas, todos recobertos de vias de acesso a sua própria auto-estrada. Mas tinha sido o domicílio e quartel-general do Pierce: o lugar onde iniciara sua especulação imobiliária dez anos antes, criando o pedestal financeiro sobre o qual mais tarde tudo fora erguido, conquanto ordinário e grotesco, em direção ao céu; e isso, ela supunha, o distinguiria de outros lugares, lhe daria uma certa aura. Porém, se havia alguma diferença vital entre San Narciso e o resto da Califórnia do Sul, não dava para se perceber à primeira vista. Édipa chegou num domingo, dirigindo um Impala alugado. Tudo estava parado. Do alto de uma colina, apertando os olhos contra a luz do sol, viu um vasto conglomerado de casas que, como uma plantação bem cuidada, haviam crescido juntas da terra marrom-escuro; lembrou-se do dia em que abrira um rádio transistor para mudar as pilhas e vira seu primeiro circuito impresso. O turbilhão ordenado de casas e ruas, vistas do alto, surgiu diante dela com a mesma inesperada e espantosa clareza do cartão onde estava gravado o circuito. Embora entendesse ainda menos de rádios do que de californianos do sul, ambas configurações transmitiam a impressão hieroglífica de um significado oculto, de uma intenção de comunicar. Aparentemente não havia limite para o que o circuito impresso poderia ter-lhe contado (caso houvesse tentado descobrir); do mesmo modo, no seu primeiro minuto em San Narciso, uma revelação também tremeluziu um centímetro além do limiar de sua consciência. O smog pairava sobre toda a linha do horizonte, o sol refletido na superfície bege-claro era doloroso; ela e o Chevrolet pareciam estacionados no centro de um instante singular, religioso. Como se, em alguma outra freqüência, ou à margem do olho de um ciclone que girava lentamente demais para que a pele quente de Édipa pudesse sentir seu frescor centrífugo, palavras estivessem sendo ditas. Ao menos, suspeitou que assim fosse.

    Thomas Pynchon em O Leilão do Lote 49 (traduzido por Jorio Dauster)

    (Anotado em 2022-12-23)

  • O caminho

    Alguns, fanáticos,
    tendo feito calar
    a voz da razão,
    submetem-se obtusamente
    à inanidade das crenças
    e aos dogmas da religião.

    Enquanto outros,
    perplexos, aturdidos,
    ficam indecisos
    entre clarões e trevas,
    entre aceitação e dúvida.

    Eis que, despertando-os,
    clama
    a voz estentórica de um fantasma:

    Ó insensatos,
    eternamente ludibriados,
    quereis saber o caminho?
    O caminho não é este...
    Não é este,
    nem é aquele...

    Omar Khayyám (tradução de Christovam de Camargo e Ragy Basile)

    (Anotado em 2022-12-18)

  • Um haicai

    as coisas que afundam
    com as águas se confundem
    — pousadas no infinito

    Victor Anselmo Costa (colhido da coleção RÉS | CHÃO, da editora Casatrês)

    (Anotado em 2022-12-08)

  • Sobre H. G. Wells

    Como Quevedo, como Voltaire, como Goethe, como mais algum outro, Wells é menos um literato que uma literatura. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens, prodigou parábolas sociológicas, construiu enciclopédias, ampliou as possibilidades do romance, reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó, "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico", redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima, combateu o comunismo, o nazismo e o cristianismo, polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc, historiou o passado, historiou o futuro, registrou vidas reais e imaginárias. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou, nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine, The Island of Dr. Moreau, The Plattner Story, The First Men in the Moon. São os primeiros livros que eu li; talvez sejam os últimos... Penso que haverão de incorporar-se, como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus, à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão, para além dos limites da glória de quem os escreveu, para além da morte do idioma em que foram escritos.

    Jorge Luis Borges em Outras inquisições (tradução de Sérgio Molina)

    (Anotado em 2022-11-06)

  • Auto-ilusão

    Coloquei de um modo impróprio, mas é verdade. Nenhum homem é, de fato, bom, enquanto não souber quão mal ele é, ou poderia ser; enquanto não tiver se dado conta exatamente de quanto direito tem para todo o seu esnobismo, seu escárnio ao falar "criminosos", como se fossem macacos numa floresta, a dez mil milhas de distância; enquanto não se livrar de toda a auto-ilusão suja de falar sobre tipos baixos e crânios deficientes; enquanto não espremer para fora de sua alma até a última gota do óleo dos Fariseus; enquanto sua única esperança não for, de um modo ou outro, a de ter capturado um criminoso, e mantê-lo são e salvo sob seu próprio chapéu.

    G. K. Chesterton em O segredo do padre Brown (traduzido por Lucia Santaella)

    (Anotado em 2022-10-24)

  • Âmago

    Após o nascimento do terceiro filho, também um menino, Jean-Pierre passou a se dedicar aos seus afazeres, dominado por uma tensa esperança. Seus lábios pareciam mais estreitos, mais comprimidos do que antes, como se tivesse medo de que a terra que lavrava ouvisse a voz da esperança que murmurava em seu peito. Observava a criança, se aproximando do berço com um pesado ressoar dos tamancos sobre o piso de pedra, e olhava para dentro dele, por sobre o ombro, com aquela indiferença que é uma espécie de deformidade característica da humanidade campesina. Como a terra que dominam e a quem servem, aqueles homens, lentos no olhar e na fala, não mostram seu fogo interior. Dessa forma, ao final de tudo, pergunta-se — como no que diz respeito à terra — o que está no seu âmago: calor, violência, uma força misteriosa e terrível — ou nada além de um torrão de terra, uma massa fértil e inerte, fria e insensível, disposta a sustentar um punhado de plantas que mantenha a vida ou que proporcionem a morte.

    Joseph Conrad em Os Idiotas (traduzido por Alcebiades Diniz Miguel)

    (Anotado em 2022-08-17)

  • Desamparo

    Parece incompreensível que justamente o europeu, que conheceu a profundeza dos horrores, conheceu o medo da morte e a fome, golpeado pelas pragas da civilização, quando as bençãos da cultura o abandonaram havia muito tempo, continue querendo viver entre estradas sinalizadas e proibições. Anseia pelo escritório, pela fábrica. Deseja se queixar do superior malvado, do subordinado estúpido, deseja ir ao cinema para que possa ver as paisagens onde não teria coragem e seria incapaz de viver.

    Não, não é incompreensível. O europeu é tão desamparado que não pode escolher a liberdade infinita da vida simples, elementar. A fraqueza do indivíduo cria a horda; também nessas horas, políticos educados falam de massa. Os fracos anseiam pela camisa colorida, pelas águias costuradas nos uniformes, pelo barrete negro, pela bota, porque sem eles se sentem ainda mais fracos. O europeu após a Primeira Guerra ou, o que dá no mesmo, antes da Segunda Guerra foram tão amorfos que alguns bufões pretenciosos puderam sentar-se em seus ombros — e aqui eles são tão fracos que as pernas não os levam adiante quando o bonde para.

    Sándor Lénárd em O Vale do Fim do Mundo (traduzido por Paulo Schiller)

    (Anotado em 2022-04-18)

  • Continuar

    lição de árvores
    continuar
    envergando a haste
    em direção ao sol

    Ana Estaregui em Dança para cavalos

    (Anotado em 2022-04-14)

  • Duvidoso

    É duvidoso achar que uma prolongada preparação para a guerra seja, em termos morais, em qualquer aspecto melhor do que a guerra em si mesma; até existem motivos para se pensar que seja ligeiramente pior.

    George Orwell em O que é fascismo? e outros ensaios (traduzido por Paulo Geiger)

    (Anotado em 2022-04-11)

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