web developer

anotações de leitura

  • Desamparo

    Parece incompreensível que justamente o europeu, que conheceu a profundeza dos horrores, conheceu o medo da morte e a fome, golpeado pelas pragas da civilização, quando as bençãos da cultura o abandonaram havia muito tempo, continue querendo viver entre estradas sinalizadas e proibições. Anseia pelo escritório, pela fábrica. Deseja se queixar do superior malvado, do subordinado estúpido, deseja ir ao cinema para que possa ver as paisagens onde não teria coragem e seria incapaz de viver.

    Não, não é incompreensível. O europeu é tão desamparado que não pode escolher a liberdade infinita da vida simples, elementar. A fraqueza do indivíduo cria a horda; também nessas horas, políticos educados falam de massa. Os fracos anseiam pela camisa colorida, pelas águias costuradas nos uniformes, pelo barrete negro, pela bota, porque sem eles se sentem ainda mais fracos. O europeu após a Primeira Guerra ou, o que dá no mesmo, antes da Segunda Guerra foram tão amorfos que alguns bufões pretenciosos puderam sentar-se em seus ombros — e aqui eles são tão fracos que as pernas não os levam adiante quando o bonde para.

    Sándor Lénárd em O Vale do Fim do Mundo (traduzido por Paulo Schiller)

    (Anotado em 2022-04-18)

  • Continuar

    lição de árvores
    continuar
    envergando a haste
    em direção ao sol

    Ana Estaregui em Dança para cavalos

    (Anotado em 2022-04-14)

  • Duvidoso

    É duvidoso achar que uma prolongada preparação para a guerra seja, em termos morais, em qualquer aspecto melhor do que a guerra em si mesma; até existem motivos para se pensar que seja ligeiramente pior.

    George Orwell em O que é fascismo? e outros ensaios (traduzido por Paulo Geiger)

    (Anotado em 2022-04-11)

  • Abandonar-se

    Durante o processo de elaboração de um roteiro, eu sempre tentava obter em minha mente um quadro exato do filme, e até mesmo dos cenários. Atualmente, porém, estou mais propenso a trabalhar uma cena ou tomada apenas em termos muito gerais, para que elas surjam espontaneamente durante as filmagens, pois a vida característica do lugar onde se desenvolve ação, a atmosfera do set e o estado de espírito dos atores podem sugerir novas estratégias, surpreendentes e inesperadas. A imaginação é menos rica que a vida. E, hoje em dia, sinto com intensidade cada vez maior que ideias e estados de espírito não devem ser determinados antecipadamente. É preciso saber abandonar-se à atmosfera da cena e lidar com o set com a mente aberta. Já houve época em que eu não conseguia começar a filmar antes de ter elaborado um projeto completo do episódio; agora, porém, vejo tal procedimento como uma coisa abstrata, que cerceia a imaginação. Talvez fosse o caso de parar de pensar nisso por algum tempo.

    Andrei Tarkovski em Esculpir o Tempo (traduzido por Jefferson Luiz Camargo)

    (Anotado em 2022-04-03)

  • Vai

    Ela vestiu calças e uma blusa de linho pretas. Calçou os sapatos e pendurou a bolsa no ombro. Agora está parada, imóvel no corredor, e ela própria não sabe por quê. Em sua família, se costuma dizer que é preciso sentar por um minuto antes de se lançar em qualquer tipo de viagem — um antigo costume dos confins do Polônia oriental; mas aqui, neste pequeno vestíbulo, não há nenhuma cadeira, nenhum lugar para sentar. Então ela ficou em pé acertando seu relógio interno, seu cronômetro interno, por assim dizer, cosmopolita, esse cronômetro de carne e osso que tiquetaqueia surdamente ao ritmo da sua respiração. E de repente ela se recompõe, pega a mala pela alça feita uma criança que havia se distraído e abre a porta. Já está na hora de ir. Está pronta. Vai.

    Olga Tokarczuk em Correntes (tradução de Olga Bagińska-Shinzato)

    (Anotado em 2022-01-15)

  • Rumor e purificação

    A propagação de boatos alarmantes - sempre circulando através dos canais não institucionalizados - marcava o momento em que a inquietude popular atingia seu paroxismo. O alerta do instinto de conservação por meio das ameaças persistentes contra a segurança ontológica de um grupo, as frustações e ansiedades coletivas acumuladas conduziam - e não deixariam de conduzir novamente em casos semelhantes - a projeções alucinatórias. O rumor aparece então como a confissão e a explicitação de uma angústia generalizada e, ao mesmo tempo, como o primeiro estágio do processo de desrecalque que vai - provisoriamente - livrar a multidão de seu medo. Ele é identificação de uma ameaça e clarificação de uma situação que se tornou insuportável. Pois, rejeitando toda incerteza, a população que aceita um rumor faz uma acusução. O inimigo público é desmacarado; e isso já é um alívio. Mesmo em sua versão otimista, o rumor aponta um ou mais culpados. Como durante a Fronda: os impostos iam desaparecer, e fora Mazarino quem impedira o rei de fazer esse gesto salutar. Essa projeção paranoica fazia reaparecer periodicamente, outrora, tipos ritualizados de bodes expiatórios - gabeleiros, provocadores de fomes, salteadores, heréticos. Graças a tais denominações (por trás das quais se colocam rostos), uma coletividade se posiciona como vítima - o que efetivamente é, no mais das vezes - e justifica antecipadamente os atos de justiça expedita que não deixará de executar. Além disso, imputando ao acusado (ou aos acusados) toda espécie de crimes, vícios e negros desígnios, ela se purifica de suas próprias intenções turvas e transfere para outrem o que não quer reconhecer em si própria.

    Jean Delumeau em História do medo no ocidente 1300-1800 (tradução de Maria Lucia Machado)

    (Anotado em 2021-10-19)

  • Intransigência & correção

    James Joyce escolheu o exílio, para dar força à sua vocação artística. De um modo estranhamente eficaz — como Richard Ellmann mostrou em sua biografia do romancista irlandês —, Joyce arranjou uma querela com a Irlanda e a manteve viva, de maneira a sustentar a mais rigorosa oposição ao que era familiar. Ellmann diz que “sempre que suas relações com a terra natal corriam o perigo de melhorar, ele achava um novo incidente para solidificar sua intransigência e reafirmar a correção de sua ausência voluntária”. A ficção de Joyce tem a ver com o que, em uma carta, ele descreveu como o estado de ser “sozinho e sem amigos”. E, embora seja raro escolher o banimento como um modo de vida, ele compreendeu perfeitamente suas provações.

    Edward W. Said em Reflexões sobre o exílio (tradução de Pedro Maia Soares)

    (Anotado em 2021-08-27)

  • Presa fácil

    Se os poetas têm alguma obrigação em relação à sociedade, é a de escrever bem. Estando em minoria, não têm outra escolha. Se não cumprirem com esta obrigação, submergem no esquecimento. Maioria por definição, a sociedade acredita que tem outras opções além de ler versos, por mais bem escritos que eles possam ser. Quando não conseguem fazê-lo, o resultado é descerem àquele nível de elocução em que a sociedade se transforma em presa fácil para um demagogo ou um tirano. É este o equivalente do esquecimento para a sociedade; um tirano, é claro, sempre pode tentar salvar seus súditos de si mesmo por meio de algum banho de sangue espetacular.

    Joseph Brodsky em Para agradar a uma sombra (na tradução de Sérgio Flaksman)

    (Anotado em 2021-04-05)

  • Fedallah

    Mas, seja como for, o certo é que logo os fantasmas subalternos encontraram seus lugares em meio à tripulação, embora ainda fossem um pouco diferentes dos outros; entretanto Fedallah, o homem do turbante na cabeça, manteve-se um mistério protegido até o fim. De onde viera até este mundo gentil, que tipo de ligação inexplicável o unia ao destino particular de Ahab, a ponto de exercer sobre este uma espécie de pressentida influência, só Deus sabe; mas parecia exercer até mesmo autoridade sobre ele. Mas não era possível manter um ar de indiferença em relação a Fedallah. Era uma dessas criaturas que as pessoas civilizadas e domésticas da zona temperada vêem apenas em sonhos, e ainda assim vagamente; mas cujo tipo às “vezes ocorre nas imutáveis comunidades Asiáticas, especialmente nas ilhas Orientais a leste do continente – aqueles países isolados, imemoriais e imutáveis, que mesmo nos tempos modernos ainda guardam muito do primitivo e do fantasmagórico das primeiras gerações da terra, quando a recordação do primeiro homem era uma lembrança nítida, e todos os homens seus descendentes, ignorando de onde ele veio, olhavam uns para os outros como verdadeiros fantasmas, e perguntavam ao sol e à lua por que foram criados e com qual finalidade; quando no entanto, segundo o Gênese, os anjos de fato se casavam com as filhas dos homens, e – acrescentam os rabinos não canônicos – também os demônios se entregavam a amores terrenos.

    Herman Melville em Moby Dick (na tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza)

    (Anotado em 2021-01-07)

  • Cantos de xapiri

    Os xapiri se deslocam flutuando nos ares a partir de seus espelhos, para vir nos proteger. Ao chegarem, nomeiam em seus cantos as terras distantes de onde vêm e as que percorreram. Evocam os locais onde beberam a água de um rio doce, as florestas sem doenças onde comeram alimentos desconhecidos, os confins do céu onde não há noite e ninguém jamais dorme. Quando o espírito papagaio termina seu canto, o espírito anta começa o dele; depois é a vez do espírito onça, do espírito tatu-canastra e de todos os ancestrais animais. Cada um deles primeiro oferece suas palavras, para então perguntar por que seu pai os chamou e o que devem fazer.

    Davi Kopenawa (redigido por Bruce Albert) em A queda do céu

    (Anotado em 2020-12-16)

tela inicial

Infelizmente este site não funciona no seu browser. Por favor, atualize-o para uma versão mais recente.